[ VoltarEntrevista: Jacques Marcovitch é professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de SP- 17/12/2009

Jacques Marcovitch é professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Nesta entrevista ele explica pontos relevantes do estudo Economia do Clima no Brasil. O estudo Economia do Clima foi lançado em um momento crucial em que os países trabalham na construção de um novo acordo global, durante a Conferência das Partes sobre Clima (COP 15).

Na sua avaliação, qual o desafio para uma ação multilateral efetiva?

Certamente um dos principais obstáculos em qualquer negociação é a inflexibilidade. Mas a boa notícia é que já houve muitos avanços significativos. Até pouco tempo tínhamos a obstinada resistência dos Estados Unidos em cumprir metas redutoras. Países emergentes que registram altas taxas de crescimento – incluídos na lista dos maiores poluidores, como a China, se viam isentos de qualquer obrigação apoiados no princípio da responsabilidade diferenciada, também mudaram o discurso e chegam a Copenhague com números. Nesse contexto, o Brasil desempenha um papel extraordinário no cenário internacional e também está demonstrando uma grande disposição e clareza de seus objetivos para um novo acordo climático. A apresentação de metas foi um grande passo.

De acordo com os cenários estudados, como a economia brasileira pode crescer com base em critérios ambientais?

Nas regiões mais desenvolvidas, o crescimento será por meio da inovação tecnológica, que deverá ser incorporada aos arranjos produtivos. Já as regiões centradas no uso dos recursos naturais, vão se desenvolver por meio da preservação desses recursos, reduzindo o desmatamento e assegurando o uso econômico da biodiversidade.

Porém, de forma mais abrangente, é fundamental compreender que estamos terminando a primeira década do século e o Brasil começou a construir sua nova realidade e está inserido em um quadro geopolítico estratégico. O País mostra que tem um comprometimento com um desenvolvimento rumo à economia de baixo carbono.

Além disso, devemos estar atentos que no próximo ano o País terá um grande debate nos quadros políticos e se espera que as questões climáticas estejam na pauta. De forma que, em paralelo ao cenário político, a comunidade cientifica tem a obrigação de apontar e preparar, por meio de estudos e pesquisas como esse estudo, resultados mínimos a serem alcançados até 2020.

Com base no conhecimento construído e com compreensão das interdependências entre clima, agricultura, energia, transporte, saúde e uso da terra, temos que buscar resultados do que devemos almejar até 2020. A pergunta seria: como devemos iniciar 2011?

Os dados falam por si só. Estima-se, em um cenário mais grave, que com o impacto da mudança do clima o PIB brasileiro poderá ser reduzido em 2,3%, em 2050. 

\"Certamente um dos principais obstáculos em qualquer negociação é a inflexibilidade\"

Jacques Marcovitch

Quais são as principais oportunidades de mitigação apontadas pelo estudo?

De forma geral, a transição para uma economia de carbono só tem a trazer retorno econômico para o País. Hoje, já temos uma mudança significativa em curso. Empregos verdes já estão sendo gerados, as universidades já estão preparando e oferecendo carreiras para essa área e o setor produtivo já reconhece que precisa avançar em tecnologias limpas.

Porém, o estudo aponta algumas oportunidades, como a taxação de carbono e os retornos de investimento em áreas agrícolas e de energia.Ao taxar carbono entre US$ 30 e US$ 50 por tonelada de carbono, o País reduziria as emissões nacional entre 1,16% e 1,87%. Já no setor energético, ao tomarmos referência o Plano Nacional de Energia 2030, o potencial estimado de redução de emissões, com iniciativas de eficiência energética, seria de 1,8 bilhão de toneladas de Co2 acumuladas no período de 2010 a 2030. Nesse cenário poderia haveria um ganho de US$ 34 bilhões em 2030, equivalentes a US$ 13 por tonelada de CO2.

Texto publicado no site oficial do Governo Federal